segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009


Ontem foi o dia em que te vi…peguei em ti e coloquei-te na cama, a minha avo já não tem forca, deitei-te, e juntei a minha mão ao teu rosto, senti a tua respiração, com medo que aquele segundo fosse o ultimo que a sentisse..
Olhaste-me sem intenção..
Mas nao falaste. As lágrimas foram-nos caindo pelo rosto.
Em silêncio dei-te a mão…apertei-a! E tu sentiste que eu estava ali, para o que desse e viesse..
Nunca dei atenção, a tudo o que tu me deste...Aos valores que me passaste, a forma como me educaste, e me fizeste ser a pessoa que sou hoje.
Sempre sorri com a alma, porque tinha tudo, porque te tinha.
Não consigo imaginar-me sem ti...Mas muito menos ver-te sem comer, e a sofrer numa cama...


É incrível como tantas as vezes que estive contigo, de tantas as conversas que tivemos, e mesmo assim não conseguiste contar-me a tua vida toda.
Confesso que 89 anos de vida tem muita vivencia, lembro-me de me contares uma parte em que dizias, Cheguei mesmo a andar só com um vestido, e a tua avo ter tudo..
Sempre te admirei, e nunca to disse.
O que mais me custou foi que, vi-te em 19anos da minha vida, mas nunca te vi numa decadência deste tipo.
Foste forte em todos os sentidos…Assustava-me quando te vinha procurar na casa da avó, e ela me dizia que tinhas ido pregar pregos para a tua casa, ou que a tinhas ido pintar...ia a correr ver onde estavas, e apanhava-te em cima de um escadote!
Sempre foste teimosa como eu...e talvez esta parecença de teimosia, que te fez adorar-me em todos os meus momentos, desde criança...desde sempre...
Escrevo para te lembrar, mesmo sabendo que te lembrava se não soubesse escrever.
Fazia qualquer coisa, tudo, para voltar a ver aquela tua forca, aquele teu sorriso que me fazia crescer a lágrima no canto do olho.
Abdicava de tudo o que tenho, de tudo o que pudesse ter no futuro, para te ter ao meu lado, para sempre…
Hoje dei-te o jantar, enquanto to dava, via-te soluçar como nunca vi.
Abrias tanto os olhos, que o meu coração saltava batimentos com tanto medo de te perder..
Mas surpreendes-me sempre...Nem doente, nem assim te consigo fazer comer os espinafres...realmente, tu nunca mudas..
Agora estou a deixar-te adormecer...Pareces um querubim que só faltava ter asas para ser um anjo, como diz a Sílvia..
Nisto, gostava de ter palavras…e não ter só sentimento, gostava que acordasses agora, para eu te dizer o quanto gosto de ti, o quanto me fazes falta..Mas, tenho medo de te acordar, e depois eu tenha que ir, e tu custes a adormecer..
Tu sabes que só há duas coisas que me tiram o sorriso e a alegria de viver, se me faltarem.
Uma delas e o tal desporto que , apesar de dizeres que e de rapaz, sempre gostaste que te falasse dos meus jogos, e quando íamos na rua e as pessoas me viam contigo, diziam, a sua bisneta e a maior futebolista daqui. apesar de eu não ter muita idade, só não via quem não queria, o orgulho que tu transportavas em mim..sempre tentei que me fosses ver jogar, mas a vida nunca deixou..e agora que te vejo..penso que ela não deixou porque secalhar eu nunca insisti..e arrependo-me tanto..
E a outra coisa és tu.
Não és aquela pessoa importante na vida de alguém, tu és a vida de alguém...Tu não és só o carinho que sinto por ti. Tu és todos os meus sorrisos, diários, semanais, mensais.
Tu és as lágrimas que choro de felicidade, és a alegria de marcar um golo desejado.
No entanto, és a minha fraqueza...o meu maior medo.
Ontem, estava longe. Quando a avo me liga as 11 da noite e pergunta se estou acordada, disse-lhe que sim, mas que não estava em casa…ela diz-me que se me quisesse despedir de ti, tinha de ir ter contigo agora…Eu estava a 150km de distância..o aperto que só eu senti..morri por dentro naquele momento..
Desesperei sem dizer, não manifestei por querer…o choro veio sozinho.
E hoje digo que tenho medo de te perder, e de não estar ao pé de ti quando acontecer.
Eu hoje sorriu, mesmo por cima da angustia que sabes que sinto por te ver assim…por te sentir assim.. mas sabes que esta alegria que esta colada a minha pele, que me faz ser a criança de 5anos que sou.. que a vais levar contigo, para onde quer que vás..
Pergunto se será por isso que tens tanto medo de me deixar..
nunca conheci ninguém que tivesse tanto medo de morrer..tal como eu..tal como tu..
Continuo a olhar para ti e penso, eu agora tenho o poder de te pedir para acordares, e tu acordas, ainda agora te olhei, pedi para mim, tu sentiste e acordaste…estranho? não sei...mas e amanha? Amanha quando eu te vir e pensar que estas a dormir, quando eu te pedir para acordares e tu não me fizeres a vontade? Como vai ser ?
Não me deixes...
No meio disto tudo, pedia para te dar um bocadinho da minha forca… tu não te negas a viver, simplesmente tu não consegues..não tens o que te puxe..eu não te chego..
Mas acredito que se fosse antes, tu conseguias..e superavas tudo..
Sabes o que e, teres alguém que gosta de mim, mais do que a si próprio? alguém que faz das tripas coração só para me ver sorrir..para me dar tudo o que eu necessitava..
tu passavas noites a chorar por pensar que eu passava fome.. Tu ficavas horas a contar o dinheiro para saber se ele chegava para acabar o meu curso…para eu ser alguém..



E hoje, antes de ir ao teu encontro, passei onde ontem, eu era criança…olhei as palmeiras. Relembrei um jardim, e lembrei um lugar onde antes haviam bancos.. Vi uma arvore que já não existe, lembro-me de me lembrar que tinha resina, e eu ainda não sabia o que era..ate te perguntar e dizeres em linguagem de menina, que era o sangue da arvore..
Este e talvez um dos sítios, onde se me perguntarem, não posso negar que cresci ali..
Agora antes de passar a tua casa, vi a tua rua.. a calcada onde fiz feridas que sararam depressa, com a tua ajuda..onde andei horas a sorrir e a pedalar quando ganhei a minha primeira bicicleta..dada por ti..
Entrei no café onde gosto tanto de ir dar um beijinho aquelas pessoas que me viram crescer.
Entretanto, encontrei o avo…falei-lhe e disse, vou agora dar-lhe o jantar lá a casa, ele olhou para mim, e disse-me que tinhas ido novamente para o hospital…que estava lá desde manha..
Nisto, apressei o passo..fui ter com a avo, e deparei-me com ela num choro interminável..pensei o pior..e ela disse me que se não melhorares ate as 9 e meia da noite..que tens de ir para Évora..
eu não sabia de nada..ninguém me diz nada..como e que eu posso andar descansada sabendo que andas a sofrer assim?
eu quero-te sempre perto de mim..tu sabes.. mas, não me pecas para entender o que e ver-te a sofrer numa cama..a ver que vais para o hospital a toda a hora levar soro.. a ver que não tens melhoras.. e eu não posso fazer nada.. estou impotente ao mais alto nível..nem a minha presença te faz sorrir já.. porque não consegues mexer os músculos da cara para o fazer..eu compreendo..
Entende só...
Eu adoro-te.
Não me deixes..



31-01-09


Ultimamente preenches o meu pensamento, e hoje dei por mim a pensar…Quando me ias buscar à escola, levavas-me para casa, davas-me o lanche, e deixavas-me ver um bocadinho dos meus desenhos animados preferidos, mas só com a condição de eu dormir a sesta a seguir…
Lembro-me também, de ter medo de subir as escadas para ir ao teu quarto, mas lembro-me que quando as subia, tinha os meus brinquedos ao pé da janela, onde batia um sol perfeito…Tenho essa imagem em mim, desde que me conheço.
Ainda me lembro da tua cama enorme, e de quando dormia contigo… lembro-me da cozinha, onde o frigorifico já não tinha nada lá dentro, pois passaste a ficar em casa da avó, e a tua casa deixou de ser o teu palácio.
Contudo, não deixaste de falar nela, e aos 87 anos, ainda te ouvia dizer que querias voltar para lá.
Tínhamos brigas de meio-dia, porque tu não querias cortar o telefone…lembraste?
Nem o telefone, nem a água, nem a luz… e quando começou a chover lá dentro, foste à câmara reclamar, e não saíste de lá até te irem arranjar a casa…
Os homens já não te podiam ouvir, coitados…
Digo isto porque, quando tu querias realmente uma coisa e a punhas na cabeça, tinhas de levar a tua avante.
Ainda hoje és assim, orgulho-me de ter um bocadinho disto de ti, de me teres ensinado a nunca desistir daquilo que queremos, e a insistir quando vale a pena.
Tinha em ti um modelo de alguém que era intocável, que era imune a tudo o que era mau.
Tinhas as tuas queixas claro, como toda a gente, mas sempre foste forte…Alias, acredito que a palavra “forte” só exista por tua causa.
E nunca pensei ser possível ver-te sofrer como estou a ver agora…como estou a sentir agora…
Ainda ontem, estavas a levar soro desde manhã, não vias ninguém, e eu cheguei perto de ti…
Olhaste-me, e disseste: -Pede o dinheiro à avó!
Como quem diz, eu posso já não estar aqui para to dar…
Chorei, e agarrei-me a ti sem falar…Tu gemias com tanta dor…Não paravas de tremer, até reviravas os olhos…
Fui buscar-te água, e fiquei à tua cabeceira.
Quando me levantei, agarraste-me e disseste, “não me deixes aqui…”
A força como o fizeste disse-mo…
Eu não conseguia ler as palavras em ti…Não dizias coisa com coisa…
Ficámos horas nisto.
Entretanto a avó chegou.
Estive um bocadinho com ela enquanto estavas a levar soro.
Peguei na mão da avó para não se sentir sozinha…E ela começou a perder os sentidos, e desmaiou-me nos braços…
Assustei-me! Gritei por ajuda, senti-me perdida.
A avó sozinha não aguenta, e ao ouvir-te gritar, e ao ter a avó nos braços…Desesperei.
Não sabia o que fazer, onde ir…
A avó voltou a si, e deitei-a nos bancos do hospital, descansou ali…E voltei para o teu lado, continuavas a tremer, e eu disse-te que estava ali contigo, que não saía dali... mas o teu corpo ignorou-me, e continuou a tremer.
E eu chorava, soluçava, sem ninguém ali comigo…Só tu.
Passaram horas, e melhoraste. Deram-te alta.
Fui contigo na ambulância, e fomos para casa… o caminho foi atribulado.
Tinhas muitas dores, e tive de te agarrar na maca com força para não sentires as lombas, e os buracos do chão.
Continuavas a tremer…e tinhas uma expressão de pânico.
Chegamos a casa, e ficaste ainda um pouco no corredor. Esperámos pelos bombeiros, e eu olhava-te e pensava como podia estar eu a ter um pesadelo que durasse tantas horas…dias.
Mas, tenho esperança que de um momento para o outro, eu acorde…e tu, estejas sentada no sofá, olhes para mim, e digas:
-Dou-te tanto dinheiro não sei para quê, continuas a usar calças rasgadas!
Quero ver-te a resmungar comigo como fazias…
Quero ver-te ali…Forte, de pé…E a sorrir, para mim.



01-02-09

2 comentários:

  1. =( Nunca se sabe bem o que se dizer numa ocasião destas.

    A vida corre, nunca pára. Nunca! E nada se perde! Absolutamente nada! Mais forte que tens sido não se pode pedir. E a tua bisavó sabe diso e de certeza que tem um orgulho enorme em ti. Fazes mais que muita gente faria.

    Espero as breves melhoras. E força para ti, muita força!
    Beijocas

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  2. Prima... é preciso ter força, não é? Mais do que força... é preciso querer...e lutar. Eu vou estar sempre aqui para o que precisares. E tu tens de estar sempre aí para o que a tua avó precisar. Eu estou sempre ao teu lado. Adoro-te :)

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