quarta-feira, 1 de julho de 2009

Fazes-me falta

Hoje é daqueles dias que não sei se hei-de ficar triste ou contente...
É daqueles dias que não sei se agarro um sorriso, ou se me deixo cair num choro de saudade sem fim...
Zanguei-me contigo por causa da bebida...Fazia-te mal! Eras cardíaco...
Zanguei-me contigo só dessa vez.
E perdoei-te em criança todas as tuas bebedeiras, todas as tuas chegadas a casa, tardissimo, em que me lembro de me pores a mim, tua neta, na rua...
Perdoei-te sempre, as facas que apontavas à minha mãe, à minha madrinha, e os mimos que sempre deste ao meu tio...
Mas enchias-te de orgulho de mim quando os teus vizinhos diziam: -" Tens uma neta tão bonita!"
Aí já davas voz ao assunto e falavas das tuas filhas e da tua mulher, mas acrescentavas sempre que saía ao avô, claro...
Eras terrível, mas tinhas bom coração.
Durante um tempo, paraste... ou eu assim quero acreditar...
Foram tempos calmos!
Habituei-me a esses tempos, e não te perdoei quando os deixaste!
Não te perdoei, e ainda hoje não te perdoo...
Ainda podias estar aqui hoje... ainda podias ver-me jogar, com um simples emblema da casa do benfica ao peito...sei que nada te ia roubar esse sorriso quando me visses, porque das tuas duas paixões, eu era aquela que tu gostavas mais...
Eu sei, era por eu ter um pai sportinguista e sempre ser do benfica como tu, ferrenha...
Dia de benfica, dia santo!
Em casa jantava-se mais cedo, e depois era silêncio absoluto, só se ouvia eu e tu, em frente ao televisor, a gritar até não termos voz quando era golo...
Foi um amor que aprendi contigo...

Vias-me jogar apenas na rua quando passavas antes de ires trabalhar, e era assim que começava o meu dia...eu dormia na mesma cama que a madrinha, o dia chegava, mas eu era pequenina e não conseguia passar, ela fazia questão que eu ficasse do lado da parede... Então assimque eu visse um raiozinho de sol que entrasse pela janela, despertava e abanava-a : "- madrinha, já é dia! Acorda..."
Ela não descansava nada, coitada... Mas eu insistia, metia-lhe as mãos nos olhos e abria-os, se não resultasse, ia abrir o cortinado.
Ela deixava-me passar, e eu ia ver televisão até serem 8h da manhã... sempre fui uma criança irrequieta e cheia de vida, nunca me contentei com pouco, e nunca aceitava um não.
"Não podes ir para a rua porque está a chover, não podes ir ter com o avô porque ele está ocupado com as ovelhas, não podes jogar à bola porque chegas a casa cheia de marcas nos joelhos, não andes descalça, não corras, não faças isto, não faças aquilo!"
Não ?
Claro que fazia, jogar à bola à chuva e chegar a casa cheia de lama...
Quantas crianças tiveram a sorte que eu tive ?
Quantas crianças com apenas 7, 8 anos, tiveram uma infância tão saudável como a minha ?
Ok, eu ficava cheia de marcas, sujava muita roupa...
Desobedecia...
Fazia o que queria, e levava muita porrada por isso, mas achas que me arrependo ? Avô ?
Não! Porque até eu, com apenas 8 anos, sabia que rir, era imperativo.
E até me ria quando a mãe me batia, escondia-me dela e pregava-lhe sustos...depois pagava por isso, mas valeu sempre a pena ...

Quantas vezes fugia eu por um buraco numa parede de uma casa que estava a ser construida ali ?
Tudo para ir ter contigo...
Percebe-se que com 8 anos, eu não podia ajudar-te em nada... No entanto, tu desfrutavas da minha companhia.
Gostavas de me ver correr no campo, acho que até gostavas quando me vias cair e me picava toda...
A imagem que ainda hoje me recordo, é de ti a meu lado, sentados numa pedra com o sol a pôr-se, a ouvir o relato do benfica na tua telefonia velha, que insistias em usar...
Era a tua companhia na minha ausência...
Gostavas muito da banda também, e não faltavas a nenhum concerto.
Chegava contigo a casa à hora de jantar, e quando não chegava contigo, dizias : "- Patrícia, está a ficar tarde, a tua mãe chateia-se. Vais andando que eu já te apanho."
Contrariava-te quase sempre, e esperava por ti nos tanques, mas enquanto tu davas a volta ao portão, eu pulava o muro, era assim...
E no dia a seguir, ia levar-te o almoço para poupar a avó de subir o monte, era uma desculpa minha para passar lá a tarde... a correr, atrás dos cães e com medo dos perus!
Que bichos irritantes...
Tinha amor em correr por aqueles montes, tinha amor quando apanhavas uma folha de oliveira e lhe espetavas um palito, entregavas-me para eu fazer de barco, no largo ribeiro que lá se encontrava...
Até tinha amor em encher-me de roupa nos dias chuvosos, e subir aqueles balcões de terra escorregadios, houve uma vez que escorreguei e só vi uma mão a agarrar-me...
Sabe-se lá como, sobrevivi.
Tinha amor ao teu feitio rude, herdei-o !


Herdei-te a feição de teimosa que não houve ninguém, e tem sempre razão.... Não me arrependo de ser assim, como tu foste.
Uma pessoa que adorava bolinhos de mel, pegaste-me essa mania, essa, e a dos suspiros...
Até me compravas sacos!
Fiquei triste, sabes ?
Sinto tanto a tua falta...
Acho que nunca te disse como gostava do teu sorriso malandro quando me olhavas...
Éramos mais parecidos do que tu julgavas! Saímos em defesa de qualquer um, uma vez saí em defesa, e quem acabou por levar com a minha raiva, foste tu!
Perdoa-me essa vez, mas não foste correcto... Não querias ver a novela, e eu disse-te que podias mudar de canal, mas a avó viu como fiquei triste e disse-te : "- deixa a miuda ver a novela um bocadinho!"
Não viste aquilo com bons olhos, e gritaste com ela... até lhe agarraste o braço!
Assustaste-me, acreditas?
Corri para ti, e preguei-te um pontapé, pus-me à frente da avó a olhar para ti.
Eu tinha apenas 9 anos acabados de fazer...
Mas tinha um olhar profundo e um ar rebelde, como dizias...
E viste nos meus olhos como fiquei zangada...
És como eu. Viras as costas, mas ficas a pensar nas coisas!
Arrependeste, mas não dás o braço a torcer...
Perdemos tanto com isso, avô... tanto...
Deixei de te ver com tanta frequência, a tua casa passou a ser as tabernas.
Não sabes como me deixavas triste... E era onde te encontrava, bêbado e sozinho, agarrado ao copo de vinho.
Trocaste-me pelo álcool! Deixei de ser a tua companhia, e não o aceitava!
Mas limitava-me a ficar...
A avó veio viver connosco devido à doença, e ficaste sozinho.
A minha infância perdeu-se, os amigos que lá deixei, aqueles pedaços de relva que eu deixei para trás, e a horta, onde me despertava a curiosidade de fazer crescer coisas...
Mas a minha vida mudou.
Cresci a sentir falta desse tempo...
Todos os dias ouvia as pessoas a falarem de ti.
"- O teu avô ontem levou com uma garrafa de vinho no nariz!"
"- O teu avô agora anda com uma pistola daquelas de bolinhas para assustar os velhos do café!"
Eu só me podia rir das tuas parvoíces!
Criança grande, tu! Que nunca cresceu...
Mas via que estavas perdido...
O álcool fez-te perder no seu paladar...
Embebeu-te de mau estar...
Não estavas bem com a vida!
Vendeste as ovelhas, deixaste de ir ao meu campo...
Deixei de te ver...
Um dia, apareceste bêbado à minha casa, ofendeste a avó, pus-te na rua e sentaste-te no muro de onde caiste e partiste as flores à vizinha!
Que triste figura...
Acredita que desta não te perdoei...
Fiquei chateada, triste...
Não te queria ver à frente.
Passou uma semana talvez, e fui a uma festa de final de época de um clube onde fazia torneios de Verão.
Quando regressei, passei por ti de carro onde estavas sentado no passeio à beira da estrada.
vejo-te agora, como te vi há dois anos atrás...
Sorriste para mim, e fizeste-me adeus como se soubesses que era a última vez...
Fiquei contente por te ver, não parecias zangado, e eu esqueci por momentos o que se tinha passado.
No dia a seguir fui para a praia com umas amigas e ao bater das 17horas recebi uma mensagem de sentimentos da prima Liliana.
A minha primeira reacção foi, enganou-se...

1 comentário:

  1. Os momentos menos bons servem para tirarmos lições... e os melhores para recordarmos com um sorriso.
    São esses pedacinhos dele, tão importantes para ti, que deves guardar sempre no teu coração. A perda faz parte da vida... mas é também ela que nos deve lembrar de dar valor a quem está perto de nós, para que possas ter sempre muitos e muitos momentos a recordar.
    Aqui contigo... sempre.
    beijinho

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