terça-feira, 17 de novembro de 2009


A noite chega de mansinho, e o meu pensamento a ti.A imagem e o som da flauta, um dia de sol, de mar, de calor...e um abraço teu.E esse abraço, emana uma luz de aconchego e de amor...E há um sorriso, sabes.
Há o teu sorriso...E a minha vida passa.
Há uma postura, um corpo, um olhar de viver...Há o preto e o verde, o castanho, o vermelho dos teus lábios...e o azul dos teus olhos...
Mas também há areia da praia. Há rochas...E há uns dentes!, os teus... que teimas em mostrar-me.
Há um olhar no chão, que tem como fundo o mar...Há sinais, de um rosto que já passou pelo gelo e pela dor...
E vejo uma miuda. É loura ela. Vejo um prédio de hotel, e cheiro a maresia... Sentadas numa mesa de restaurante a preto e branco.Vejo as pessoas, os amigos, os conhecidos e os que aparentam querer ser...Vejo e revejo momentos que se gravam, e que a fita nunca termina. São instantes que se agarram, e que preenchem uma vida...vejo-te a ti, com a ementa na mão, com a cara de indecisão, e a olhar a minha expressão... Será que esperavas que te dissesse que não ?Podias escolher tudo menos peixe, tu sabias, não havia perigo...era uma pizzaria .
Vejo o teu pescoço e a lente dos teus oculos de sol.Olhava o teu cabelo, a tua pele, e a curva do teu queixo...Via-te assim de perfil. Como se fosse de frente. conhecia-os, conheço-os todos. sempre... cada traço... Cada respirar...cada som.Se o meu dia de amanha fosse como tu, eu sabia o que esperar dele...por te conhecer tão bem. Sabia que o dia de amanha não me falhava.
Vejo-te sentada, sem nunca tirar os óculos de sol! devias gostar mais deles do que de mim...será que era porque eu era o teu reflexo neles?Gostava de pensar que sim.
E continuo a ver a miuda, com os lábios juntos e a mão em ti... Com os olhos fixados em ti, tinha uma argola ela, que nunca tirava, que nunca perdeu.E continuo a vê-la, ela continua com o nariz torto sabias?E continua a ficar ainda mais loura a cada estação que passa...
Mas volto a ver-te a ti, a caminhar na praia, a deixar as tuas pegadas na areia... como eu gostava que fosses a frente para pisar as tuas pegadas, principalmente a subir...Consigo ver-te a 10 metros, e mesmo assim o teu sorriso é sempre o mesmo!O teu sorriso e a maneira com os fios do teu biquini enrolam no teu pescoço, nunca muda.
E tentas ver a tua vida lá ao fundo, naquela mesma praia.Olhas a tentar achar alguma coisa que nao sabes que precisas...que nao sabes se vais precisar, porque tens, porque tinhas... porque vais ter sempre.
E as ondas do teu cabelo, irão sempre fascinar-me e fazer-me sorrir. mais que não seja por eu me lembrar de te fazer a risca ao meio e tu odiares-me por isso... eu sei que me odiavas, não mintas...nestes momentos se pudesses sufocavas-me com um beijo se eu nao fugisse de ti...Verdade? ou preferes mentir?Odiavas-me por isso...sempre odiaste risca ao meio...Sempre, mas sempre me odiaste por isso....e eu sempre adorei a forma como me odiavas...
Vejo-te do outro lado agora... Vejo-te de baixo, mas vejo-te com os pés em cima, descalça.Vejo as marcas deixadas na pele...E os teus pulsos fininhos...Vejo-te pelo céu. e continuas com os óculos...
Escondeste no meio de uns chinelos, e pensas que assim te podias esconder de mim, não me querias ver, dizias-me. escusavas era de comprar chinelos curvos, onde fingias que nao me vias e eu olhava-te nos olhos à mesma...
És a sombra do chão. e completavas a areia da praia.
As praias do Algarve, dias de sol, dias quentes, dias de aconchego do coração.
Dias marcantes, marcados.
E continuo a falar de ti, porque já não vejo a tal miuda, aquela que era loura e que assim permanecia a cada estação! Lembraste dela ?
Aposto que nem tu nem eu a conseguiamos avistar a 10 metros agora...Mas lembro-me do sorriso dela, e do quanto gostava e gosta de ti, e vai gostar sempre. Afinal é isso que importa não é?
Os dias passam, as coisas mudam... E as recordações ?Essas permanecem...para sempre, escritas num caderno onde as folhas não se usaram todas...

...e um dia, tu tinhas razão.
Fazendo as contas, há algum tempo que não escrevia para ti. Dizia que eram fragilidades tuas, que não é por aí que se mostra o quanto se ama. Sim, há mais de 8 meses que não fiz aquilo que tu sabes que eu fazia genuinamente por necessidade, por desespero, por precisar pôr cá fora a força que às vezes me ameaça rebentar as veias quando o meu sangue corre nelas a ferver, quando o meu coração bate forte demais e faz um eco tão grande na minha cabeça, que precisa de um tecto maior para se fazer ouvir, o tecto do mundo exterior.Fazendo bem as contas e contando lutas, subtraindo derrotas, multiplicando esforços e somando algumas vitórias, aprendeste a viver com os meus erros e o que eu dizia ser a minha nova forma de amar, e de estar perante o amor e a vida. E sei o que percebeste... que o amor, pode ser vivido por 1001 pessoas, todas diferentes, mas mesmo assim há algo que as une: o orgulho de amar. Tu tinhas esse orgulho. De me amar. De me procurares entender, aceitar, perdoar, ajudar, criticar, aquecer, proteger...Tinhas orgulho de amar quem já não mereceu ser amado, ser vivido, ser protegido, mas que amavas mesmo assim. É sair com o orgulho ferido, mas ainda assim tê-lo e levantá-lo como uma bandeira.E sei porquê.Porque se tivéssemos de dar um nome ao Amor, o seu sinónimo seria Esperança.Amar verdadeiramente é isto... é ter esperança, é estar sentada numa cadeira, mas ter o pensamento a mil anos luz de distância, não por opção, mas porque é condição implícita de amar.É ter esperança que quem está do outro lado, tenha a mesma necessidade que nós, o mesmo desejo que nós, a mesma vontade que nós, que esteja a pensar em nós, ou a escrever porque precisa, tal como nós, de gritar ao mundo o quanto nos ama, sem ter medo de juizo de valores, como tu tinhas. Porque afinal de contas, quem pode ter coragem de criticar um amor assim?É ficar magoado consigo mesmo quando nos magoa.É esperar que do outro lado haja alguém que seja capaz de mover uma montanha do tamanho do nosso amor para nos arrancar um sorriso, pois é ele a luz que alimenta a sua alma... É ter sempre palavras quando já não as há à altura de descrever o amor. É ter medo de perder, quanto mais amado se sente, por dar cada vez mais valor ao privilégio que se tem. Amar e ser amado.Amar é chorar de alegria por ser correspondido...Amar não é mais ou menos, não é dia sim dia não, nem é só quando a vida nos corre bem. Amar é ser louco... e gostar de o ser.É cair na incoerência de fazermos o que mais gostaríamos que, a pessoa que nos ama, fizesse para nós. No teu caso, escrever.Não é capricho ou exigência nossa. Era a do amor que sentiamos.Amar assemelha-se à plenitude de viver...
E sim, eu entendi...
E sei que nunca, nunca, vou ter nada como tive.

Ficam-se as lembranças suspensas no tempo.
Fica o desejo de te voltar a ver sorrir, um dia...

domingo, 15 de novembro de 2009




Por vezes penso como apareceste...
Ou penso só como começaste a fazer parte da minha vida... e o nosso percurso todo, as minhas falhas, as tuas, as nossas dificuldades, e os nossos momentos mais loucos, mais felizes, não há lugar para os tristes...penso como foste tão importante, como és tão importante e me agarraste de forma tão marcante que nao é possivel descrever aqui.
sabes o que é não ter palavras para conseguir explicar o que tu significas pra mim e o quanto me custa termos de manter esta distância ? eu sei que é preciso... sei que tu não consegues estar ao pé de mim, mas também sei que não consegues estar longe de mim, e isto preocupa-me de certa forma... pões-me numa situação complicada, estar ao pé de ti, ou estar longe de ti? como posso continuar a manter uma amizade contigo, se quando estas comigo choras?, e choras quando estas longe tambem, que eu sei...
Posso pedir-te que pares de chorar? Tu sabes que eu não o mereço...Então pára...
O meu ombro está sempre aqui, mas quando tu choras e depois te vais, a minha camisola continua molhada durante muito tempo, devido às tuas lágrimas que não secam...Percebe, eu não consigo ver-te assim...isto mata-me por dentro... tira-me o sorriso...
Diz-me o que posso fazer...
Tu sabes que partilhámos tudo, tu eras o meu porto de abrigo...quero que continues a ser...
Tu sabes que me custa ver-te a sofrer por minha culpa...e desculpa se me chateio contigo de cada vez que choras ao pé de mim...é só porque eu não aguento...Não aguento porque gosto muito de ti!
Perdoa-me então as noites em branco que passas pelo amor que me tens...
Perdoa-me então o abraço que não te dou quando mais precisas...
Aqui o tens.

Adoro-te.

sábado, 14 de novembro de 2009


CHUVA...


"Embora lave o medo

que há do fim

a chuva apaga o fogo

que há em mim

Ouço a voz de quem

me quer tão bem

E fico a ver se a chuva

a ouvirá também..."





Ornatos Violeta- Chuva

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"Na noite escreve um seu cantar de amigo.
O plantador de naus a haver, e ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo, de império,
Ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
É a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar."



Fernando Pessoa

domingo, 4 de outubro de 2009

... Conseguimos aquilo que realmente queremos e quando estamos dispostos a lutar por isso!
Nisto acredito...

domingo, 27 de setembro de 2009



"Hoje não me deixaste dormir Joana.
De cada vez que fechava os olhos via os teus olhos de anjo, a tua cara sofrida traçada por socalcos de desconsolo e incompreensão.
Sempre te levantaste contra as injustiças do mundo, sempre pensaste mais nos outros do que em ti e hoje presto-te singela homenagem querida Joana.
Porque este mundo ainda não está preparado para as diferenças intrínsecas que existem dentro de cada um de nós.



A mãe de Joana fechou os olhos logo após a exclamação da enfermeira "é um menino!" e nunca mais os abriu.
Durante toda a gravidez tinha sonhado com a sua menina semente que sentia crescer pujante dentro da sua barriga.
Muitos anos depois da sua morte pós-parto ainda se comentava que tinha sido o desgosto daquela troca de género que a tinha matado, ou talvez até o desgosto que tinha sentido por pressentir que aquela sua filha nunca poderia vir a ter uma vida fácil e despreocupada.
O facto é que Joana se sentia culpada pela morte da mãe que não conhecera.
Tudo na vida dela emanava desse “engano” primordial cometido sabe-se lá por quem nem porquê. Tal como sua mãe, Joana estava convencida que deveria ter nascido menina e achou que um pequeníssimo adereço a mais entre as suas pernas não deveria ter a mínima influência naquilo que era a sua essência verdadeira.



A somar à morte da mãe, o pai abandonou-a por achar que aquele filho frágil e doente não iria sobreviver aos anos da infância e entregou-a aos cuidados da avó, que se encarregou de providenciar a educação que sentia necessária à neta, fosse ela menino ou menina.
Se Joana sobreviveu foi graças a essa avó, que de tudo fez para que ela se mantivesse à tona num mundo lamaçal pestilento de agressividade e egoísmo.


Na escola Joana brincava com as meninas e andava sempre com elas excepto nos momentos em que precisavam de usar a casa de banho. Havia sempre um adulto que se lhe punha no caminho e lhe dizia "Então?? Aí é a casa de banho das meninas, tu não podes entrar aí, tu tens pilinha!" E lá se lembrava que aquele minúsculo adereço lhe impunha rigorosas regras de segregação que todo o resto do seu ser não compreendia.


Na aldeia e na escola habituaram-se a chamá-la de Ju, já que ela não respondia quando a tratavam pelo nome de baptismo. João ou Joana, tantas diferenças contidas, escondidas em tão poucas letrinhas. E um preço tão alto a pagar por querer um "n" ali antes do "a" no final. Joana nunca quis o papel de vítima, mas era diferente para todos os que a víamos sempre esmurrada, negra de cotoveladas e pontapés que os miúdos e algumas miúdas se esmeravam em lhe dar. "Que se passa Ju? Fizeram-te mal?" perguntei-lhe muitas vezes. E ela respondia "nada vizinha, não é nada, isto passa!"


Ana era uma das poucas meninas que brincavam com Joana. Para Ana não havia dúvidas, Joana era mesmo uma menina como ela, mesmo que soubessem as duas da existência do tal adereço entre as pernas. Foi Ana quem primeiro começou a tratar Ju por Joana e Joana nunca mais reconheceu nenhum outro nome senão aquele apesar de todos os anos que passaram até que pudesse ser seu por direito.


Há medida que o tempo passava as meninas tornaram-se mulheres e os meninos homens e Joana ficou ali no meio, parada no tempo, sabendo aquilo que era mas não conseguindo encontrar aceitação no seio daquela gente para aquilo que queria ser. Quando fez 16 anos a avó chamou-a e deu-lhe uma pequena caixa onde tinha guardado todo o dinheiro que tinha conseguido poupar desde o nascimento de Joana. Disse-lhe que o seu tempo tinha chegado ao fim, que não iria durar muito mais, e pediu a Joana para se ir embora dali. Tinha medo do que lhe pudesse acontecer assim que ela não estivesse presente para lhe valer.


E assim Joana se foi daquela pequena aldeia onde vivíamos. Partiu para a cidade e mais tarde soubemos que tinha viajado para o Brasil. Só Ana lhe sentiu a falta penso... pelo menos só Ana me disse que sentia a falta daquela menina tão carinhosa, tão sensível, tão prestável e amiga de todos.


Um dia passados muitos anos Joana voltou à aldeia mas ninguém a reconheceu. Veio ter comigo e disse-me que se lembrava tão bem de mim, que me preocupara sempre por ela. Demorei algum tempo a rever naquela bela mulher o menino enfezado que dali tinha partido. Explicou-me que no Brasil estavam muito à frente nas cirurgias de mudança de sexo que não sendo um caminho fácil era já possível e com resultados muito positivos. Congratulei-a por ter perseverado nesse seu caminho, abracei-a mesmo, sentindo já um enorme carinho pela mulher feita em que Joana se tinha tornado.


Perguntou-me por Ana, queria revê-la e saber se ainda se lembraria dela. Eu sabia que Ana nunca tinha casado, que era uma miúda terrivelmente introspectiva, vivia consigo e para si e raros conheceriam o que lhe passava na alma. Lá lhe indiquei o caminho e vi-a abalar tão segura de si, tão cheia de confiança naquilo que agora tinha para dar. Querida Joana, como me arrependo hoje... devia ter pegado em ti e na Ana e devíamos ter saído logo dali!


Ana reconheceu Joana, logo assim que a viu vir. Havia qualquer coisa a ligar essas duas almas, tão transcendental como a vida e o amor. Teve com ela uma conversa que não tinha tido com mais ninguém, talvez estivesse à espera de Joana para descarregar esse fardo que a tinha trazido tão pesada e presa em si mesma. Ana explicou a Joana que um dia já depois dela ter abalado descobriu que não gostava de rapazes. Não suportava que lhe tocassem e muito menos que a beijassem! Dava-lhe asco o seu cheiro a terra, a suor e a álcool. De tal forma que da única vez que um rapaz a tinha tentado beijar Ana tinha soçobrado acometida por fortíssimas náuseas que assustaram o miúdo de tal forma que nunca mais nenhum rapaz quis tentar alguma coisa com ela. Mas Ana sabia que não era frígida, apesar de ser essa a sua fama na aldeia. Só ela sabia os sonhos que povoavam as noites longas e solitárias. Sonhos estranhos esses... feitos de mulheres que a agarravam e a beijavam e aí não havia lugar a pânico de espécie alguma. Ana confessou a Joana que sentia que gostava de mulheres, que seria esse o caminho, não por opção mas porque era esse o seu destino.


Mas sentia-se confusa em relação a Joana, porque a idade da razão lhe tinha trazido a consciência do problema da amiga. "Eu sempre te vi como menina, sempre te tratei como menina, sempre te quis, sempre gostei de ti assim..." E Joana explicou-lhe que nos anos volvidos tinha encetado esse longo e doloroso percurso físico que a tinha levado à transformação e reordenação de alguns dos seus órgãos exteriores e interiores. Ao longo dos anos, pouco a pouco, Joana viu emergir em si aquilo que a definia como mulher. E sentia-se mulher, mesmo face ao egoísmo dalgumas útero-fundamentalistas que lhe negavam o direito de se expressar enquanto mulher pelo simples facto de não puder vir a conceber. Sentia-se plena mesmo assim, mesmo sabendo que nunca poderia albergar vida em si. E para mim esse argumento era maldade pura... igual a alguém que insultasse um cego por não poder ver!


O caso é que Ana se sentiu atraída por Joana, já antes se tinha sentido, mas não assim, dessa forma tão bruta e latejante. Sentiu um desejo tão profundo por essa mulher, um sentimento tão desesperante de querer nela submergir para sempre. Joana confessou-lhe que também nunca a esquecera, que viera do outro lado do oceano para a procurar e para saber se ela era como as outras ou se a aceitaria tal como era. Estava até disposta a que fossem só amigas, desde que reatassem esse laço que as tinha unido em crianças.


Ana aceitou Joana, acolheu-a em si, abraçou-a, beijou-a... e foi magnífico! Um momento único, feito de Amor, Desejo, Vontade e Sexo. Tudo junto por uma vez só, rodopiando, subindo, explodindo em estrelas de mil cores por cima duma, por cima doutra, renascendo as duas nesse momento, nesse dia em que se amaram e se juraram Amor eterno, para sempre!


Queria parar aqui a história, queria deixar as minhas memórias congelar neste preciso momento em que as duas mulheres se amaram como nunca e se sentiram rainhas do mundo e donas duma sabedoria divina. Mas logo após, pouco depois, não sei se foram poucos meses ou muitos, a história ficou manchada de sangue e tristeza. Porque os irmãos de Ana não se conformaram, porque espalharam pela aldeia que Joana era maluca, uma bruxa que tinha sido enviada pelo demónio para destruir a irmã e toda a aldeia. Porque as gentes do campo são crentes no básico e porque se unem em matilhas raivosas para nelas esgotarem as frustrações dos seus dias plenos de mesquinhez e futilidades. Porque o Amor e a Vida não significam nada para essas matilhas que se viram contra os seus! Porque Ana e Joana não previram que a Raiva fervia na cabeça e na pele dessas gentes e porque eu própria não as tirei daquele antro antes que os outros as encontrassem e as apedrejassem até à morte. Ana ainda viu Joana desfalecer com a força do embate da pedra bicuda na sua nuca. Ainda tentou estancar o sangue que jorrava do corpo da sua amada, mas sem dedos nem mãos suficientes para travar a vida esvaindo-se em soluços quentes e vermelhos. Ana ainda viu como a turba ululante se atirou a Joana e a retirou dos seus braços, pontapeando e socando o seu corpo moribundo. Depois foi a vez dela mas nesse momento já nada sentia, toda a sua dor se tinha ido juntamente com o ultimo suspiro da mulher que amava. As pedras embatiam-lhe na pele mas por dentro já se congratulava por sentir Joana cada vez mais perto, lá dentro dessa luz que a chamava, lá onde as duas poderiam finalmente viver o Amor que aqui lhes tinha sido negado.



Porque as minhas duas meninas ainda estão Vivas, tenho a certeza disso. Sinto a luz das suas estrelas, sinto-as por perto nestas noites quentes de Verão em que recordo os seus sorrisos e o brilho dos seus olhos nos breves momentos de felicidade que viveram juntas. Tenho pena que a sua Luz não brilhe mais intensamente, para dentro da cabeça daqueles que acham que tudo sabem, tudo podem, tudo mandam! "



(Encontrei este texto num blog e decidi postar... Afinal, que direito temos nós de julgar os outros?)

domingo, 6 de setembro de 2009